Social Icons

7 de março de 2010

Relato de parto do Bruno - por Agnes

É incrível que eu esteja aqui, escrevendo o MEU relato de parto, depois de tantos outros que me inspiraram na luta para ter meu parto normal!

Estava com 37 semanas e com muita coisa por fazer ainda no quartinho dele, nem sonhava que ele pudesse adiantar... eu estava super bem, fui a São Paulo na noite anterior dirigindo sozinha, nem imaginando o que estava para acontecer nas próximas horas.

Acordei 3h30 igual todo dia pra fazer xixi, tinha ido dormir quase 1h por causa de um evento que eu havia participado, daí cheguei no banheiro e saiu um marronzinho igual início de menstruação. Meu olho estalou na hora, pensei: "meeeeuuu, é o tampão!!!!". Meu marido estava jogando video game, falei pra ele que estava com um pouquiiiinho de cólica e o tampão estava saindo. Ele disse: "ferrou, não terminamos as coisas dele!"... Daí nem fui dormir, pq nem a mala do bebê eu havia feito... meu marido foi correndo dormir um pouco enquanto eu fazia a minha mala e a do meu filho, naquele esquema: 'caso precise...". Eu não estava acreditando muito que era a hora P, era muuito cedo ainda (37 semanas). Aí arrumei as malas daqueeeele jeito, pq estava com sono... esqueci várias coisas...hahaha... tinha que ser eu!!!

Terminei e deitei, pra dormir de novo, mas a cólica estava chatinha e eu fui ver TV. Mas tb num estava confortável, então vim na Net, mandei um email pra lista Invitare e outro pra mulher das lembrancinhas pra ela enviá-las o mais rápido possível, pq o meu amado bebê Bruno estava pra chegar a qq momento. Entre 5h e 6h da manhã, vi que as cólicas apresentavam uma certa frequência e cronometrei por uma hora. Algumas estava super leves, outras mais fortes que me faziam ir ao banheiro, eu acabava fazendo "number 2" toda vez! Comecei a contar os minutos para amanhecer e ligar para o médico e para a doula, não queria despertá-los a toa, afinal, eram apenas cólicas... Então 6h00 liguei pro médico e deu caixa postal. Liguei pra doula e ninguém atendeu. Mandei mensagens e deixei recados e ambos não me retornaram, então fui tomar banho, que já tinha lido que amenizam as dores. Fiquei no chuveiro das 6h00 e pouca até umas 6h30, foi uma delícia, mas quando saí parecia que as cólicas estavam bem piores. Acordei meu marido, falei que era melhor ir pro hospital para checar, já que nem o médico, nem a doula atendiam ao telefone. Então decidimos ir para avaliação... "just in case..."...hahahah. Liguei no Santa Catarina pra saber se a suite de parto natural estava livre, a recepcionista da maternidade disse: "qual?? Aquela que tem banheira??? Claaaaaro que tá livre" (como quem diz: "ninguém usa!!!)...hhaahahahahahaha. Daí eu pedi pra falar com uma obstetriz no telefone, pedindo se ela tinha o telefone da casa do médico, e expliquei como estava meu processo. Ela pediu pra eu realmente ir pra lá, pra fazer uma avaliação, enquanto isso o próprio hospital entraria em contato com o médico, já que ele é conhecido por lá. Eu e meu marido achamos melhor irmos mesmo, porque sem trânsito o hospital está a uns 40 minutos da minha casa.

Daí meu marido foi tomar um banho, já que eu estava tão tranquila, enquanto eu continuei marcando as cólicas e elas vinham a cada 5, 6, 3, 4 minutos. Estavam mais doloridas, eu tinha que parar o que eu estava fazendo quando vinha uma. O Carlos terminou de tomar banho, eu quis tirar uma foto da barriga, vá que fosse o dia mesmo (eu não estava botando uma fé, era meio surreal aquilo tudo). Fui me trocar pra tirar uma foto com a roupa de sempre (nessa hora eu já estava pronta pra ir pro hospital). O dia estava lindo, ensolarado, tiramos fotos na varanda, depois da foto que eu percebi que minha barriga estava baixa... peguei o computador pra ouvir música na sala LDR se realmente fosse o dia do parto!

Nesse meio tempo, eu estava ligando a cada 5 minutos pra doula e pro médico, e nenhum atendia....... que saco!!! Sorte que eu sou paciente e estava tranquila, se fosse uma pessoa mais agitada ou ansiosa teria pirado nessa hora!

Fizemos o caminho do hospital, parecia que era de terra, cada buraco foi uma tortura, e o percurso leva em média 40 minutos... o Carlos ia bem devagar pra não me incomodar, e ele cronometrava cada cólica no relógio. Entre elas, batíamos maior papo....

Cheguei no hospital 8h15 mais ou menos. A médica foi fazer o tal toque. Credoooooooo. Horrível!!!!!!!!!! Até chorei, um horror. Eca. Eu estava com 3,5cm e a cabeça do bebê bem encaixada. Ela disse que provavelmente eu ficaria. Na verdade, ela disse que se eu morasse perto, provavelmente seria liberada porque 3,5cm é pouco para internação, mas como morava muito longe, provavelmente eu ficaria. Ela colocou o cardiotoco por 15 minutos- que foi uma eternidade, pq eu tinha que ficar deitada. Enquanto isso, ela saiu e foi correr atrás do médico, pq nem o hospital conseguia contato.

Ah, uma coisa: cheguei no hospital e o Carlos quis me deixar na porta. Eu disse: “não mor, não precisa!”. Fui com ele pelo estacionamento, e cheguei na recepção do hospital Santa Catarina, e disse: “moço, preciso ir pra maternidade, acho que estou em TP”. O segurança ficou atordoado, chamando o outro: “traz a cadeira de rodas, traz a cadeira de rodas, mulher em TP!!!”...huhauhuahuauahuahuahuaha. Eu disse: “calma, moço, não precisa não, eu quero ir andando!”. Ele disse: “jura???????????????”. Eu tive que jurar.......huhauahuahuhaua. E fui andando!

Voltando agora ao cardiotoco. Expliquei pro Carlos o que era aquilo, como funcionava, daí vinha uma contração (a essa altura do campeonato já não eram mais cólicas!) e eu tinha que respirar fundo. Depois continuava explicando e conversando.

15 minutos do cardiotoco e a médica volta, dizendo que o médico sumiu, mas que tinha um médico da equipe dele de plantão naquela manhã e ele topou fazer meu parto natural. Eu pensei: “ferrou, sem médico, sem doula...Deus me ajude!”. Eu quis falar com o médico plantonista antes. Chamaram ele e eu disse: “olha dr, eu aceito que vc faça meu parto (eu aceito foi boa...hahahhahhahah, como se eu tivesse escolha naquela hora...hahahaha), contanto que vc faça exatamente como meu médico faria: sem intervenções, ou seja: sem tricotomia, sem episiotomia, sem enema, sem cardiotoco, sem nada. Pode ser?". Ele, super calmo e bonzinho, disse que tudo bem. Então eu aceitei e entreguei na mão de Deus, Ele sabe o que faz!

Daí a médica disse que eu realmente teria que ficar, que o Carlos podia ir fazendo minha internação, enquanto ela ia comigo à suíte de parto natural. Ela perguntou se eu queria uma cadeira eu recusei, quis ir andando. Ela falou que tudo bem, foi ao meu lado, me dava a mão, ia ma acalmando – apesar de eu estar calma, é ótimo ter alguém assim ao lado. Ela foi um amor. Parei no percurso algumas vezes durante uma contração e outra e cheguei à LDR (a tal suíte).

Ela saiu e vieram duas enfermeiras, perguntando se eu tinha comido, se queria café da manhã, como eu só tinha comido uma maçã em casa, aceitei, mas quando chegou (uns 3 minutos depois), só quis o suco. Não estava conseguindo comer, a essa altura as contrações estavam bem próximas e doloridas. As duas enfermeiras saíram ao mesmo tempo e eu fiquei sozinha. Deu um medo!!! Nada do Carlos voltar da papelada da recepção e eu com dor! Essa hora deu uma raiva da doula!!! E o pior é que o Carlos estava com meu celular no bolso dele e eu não conseguia ligar pra minha mãe, q ela estava na praia e eu tinha que avisá-la para ela subir a serra, pois o netinho estava chegando. Aqueles minutinhos sozinha me deixaram mais tensa, pareceram uma eternidade.

Cena patética, meio desesperadora: eu queria sentar na bola de pilates, estava doendo muito (isso já eram umas 8h45 da manhã) e tinha um plástico (tipo papel filme) envolvendo a bola. Então, a enfermeira havia colocado um lençol em cima para eu não sentar num plástico, para ser mais confortável. Então, na hora que eu estava sozinha e a dor havia aumentado bastante, eu quis sentar na bola, mas ao chegar perto, o lençol caiu e eu não conseguia abaixar, por causa da dor, pra pegar o lençol. Nessa hora fiquei com medo por estar sozinha, não ter a doula e o Carlos não terminar nunca a entrada burocrática no hospital. E, pior, estar sem o celular pra ligar pra minha mãe. Ngm merece.

Por Deus, consegui sentar na bola depois de umas 3 contrações e me senti um pouco melhor. Nesse meio tempo a enfermeira veio ver se eu tinha tomado o café da manhã e o Carlos chegou. Ela quis que eu comesse pra poder fazer outro exame com o cardiotoco. Eu disse: “outro? Na cama? Nem a pau que eu vou deitar lá, vai doer mais ainda!!!” Ela disse: “é necessário, mas antes vc precisa comer, pq se não dá alteração no exame”.

Eu concordei, mas pensei: “é só eu não comer que não precisarei fazer o exame...hahahaha”. Mas mesmo que eu quisesse, estava doendo bastante e eu só consegui ingerir o suco de pêssego, não dava pra comer nada. O Carlos querendo me ajudar, coitado, deve ser duro ver alguém que se ama com dores e não poder fazer nada para aliviar!!! E as contrações foram ficando cada vez mais próximas, acredito que estavam vindo a cada minuto, era como se não houvesse folga entre elas.

Daí a dor ficou punk de vez. Eram umas 9h00 eu acho. Eu não conseguia mais suportar, nem conversar quase nada. Quis a banheira. Ele chamou a enfermeira e ela começou a enchê-la, parecia que estava levando uns 45 dias pra encher, de tanto que demorou... Ela terminou de encher, eu fui pro banheiro com o Carlos, vi que tinham umas luzes lindas no fundo, adorei. Tirei a roupa e entrei e a enfermeira baixou a luz do banheiro e saiu, ela deve ter achado que ia demorar horas...hahaha... , disse que voltava mais tarde. Deu um alívio!! Mas durou uns 3 minutos e me deu vontade de fazer cocô. Falei pro Carlos da vontade e ele disse: “é cocô ou bebê, mor???”. Respondi que "num sei, nunca tive um bebê, mas prceiso ir ao vaso". Ele me ajudou a sair e eu sentei. E não veio nada. Então pensei: “vixi... será que é o bebê, tão rápido assim?’....

Voltei pra banheira. O Carlos saiu do banheiro e finalmente foi ligar pra minha mãe do quarto, pq eu tava gemendo muito e ele não quis apavorá-la. Foi o tempo dela atender e ele dizer: “A gente está no hospital, o Bruno tá chegando” E eu gritei. Senti que era a hora. Falei: “Caaaaaaaaaarlos, ta vindo!!!!!!”. Ele desligou correndo, correu pra chamar as enfermeiras e o médico, que nem estava paramentado ainda, foi uma correria, gente entrando e saindo, ngm imaginava que ia ser tão rápido.

Daí o médico entrou e pediu pra eu sair da banheira. Não sei se ele não queria ou não podia fazer o parto na banheira, só sei que eu disse: “não dá pra me mexer, tem algo aqui embaixo e a dor é insuportável”. Ele ficou com medo do Bruno nascer ali e mandou esvaziar a banheira. Eu pensei: "como assim???? Esvaziar a banheira??!?!!?". Mas eu não disse nada, só gritava de dor. O Carlos disse: “mor, vamos pro quarto, eu te ajudo”. Tadinho, ele devia estar muito assustado, ngm pra dar apoio pra mim, nem pra ele... Então ele e a enfermeira me ajudaram a sair da banheira, no que eu saí, veio uma dor pavorosa, achei que fosse nascer e eu agachei de cócoras no corredor durante a contração. Me ajudaram a chegar na cama e, por incrível que pareça, adorei ter ido pra maca, foi o lugar mais confortável!!! Justo eu que vivia dizendo que a cama é péssima pra parir, foi o melhor pra mim!! Mais confortável até que a banheira!

Deitei e vieram umas 5 ou 6 contrações até o Bruno nascer. Eu devo ter acordado o hospital todo, de tanto que gritei. Foi completamente involuntário, era meu corpo que pedia. Antes do parto, eu achava que dava pra escolher se gritaria ou me concentraria na respiração, afinal u havia feito yoga, iria me concentrar e seria uma lady... Ledo engano. Não dá pra pensar, só pra agir. Seguir o instinto. Só. E meu instinto era gritar igual uma desgovernada...hahahaha

E então, senti a cabeça coroar. E mais uma dor, o corpinho nasceu. E a dor, sumiu, deixando só o alívio e a maior emoção que eu já pude sentir em toda a minha vida. Ele veio direto pro meu colo. Não mamou, só lambeu. E eu chorei. E o Carlos chorou. E a vida mudou. Pra sempre.

Uns 15 ou 20 minutos depois a placenta saiu sozinha, nem senti. Depois ele deu uma anestesia local para dar os 6 pontos da laceração de 2. grau que eu tive. Doeu um pouco, mas eu estava em êxtase, não parava de falar. O Carlos foi com o médico para os procedimentos com o Bruno e voltou em seguida.

Enquanto eu era transferida para o quarto, ele foi dar o primeiro banho no nosso gatinho. Deve ter sido emocionante! Só faltou a câmera fotográfica pra ter registrado tudo. Ficou na mala, não deu tempo de ir buscar. Sem registros do banho ou do parto em si. Mas está gravado na nossa memória. Para todo o sempre.

Enfim, melhor impossível. Mais perfeito do que nos meus melhores cenários de parto. Doeu muuuuuuuuito, mas foi apenas durante uma hora, e passou na hora. Ele nasceu 9h33, 10h30 eu estava tomando café da manhã, pq estava morta de fome, estava até fraca, parecia bêbada. Lembro de eu tentar falar a palavra molhado e não saía, igualzinha bêbada...hahahaha... mas depois do café fiquei 100%. 11 e pouco da manhã eu já fui ao banheiro sozinha. Uma e pouco da tarde fui tomar banho. 48h depois, tivemos alta. Perfeito. Mesmo sem meu médico, mesmo sem minha doula, apenas meu marido, que foi excelente. Ele não era a favor do parto normal, sempre achou que não havia necessidade deste sofrimento. Agora, tadinho, disse que parto normal é um horror, pq eu gritei muito e ele ficou meio traumatizado. Mas viu os benefícios da recuperação e entende o pq de eu querer um parto natural, sem intervenções.

Se a doula tivesse aparecido, ela o teria confortado e talvez a coisa tivesse sido mais light, eu não teria ficado sozinha nem um minuto, teria tido mais massagens (eu tive uma massagem, que a própria enfermeira me aplicou, ela foi minha doulinha!). Mas não posso reclamar de nada, apenas que eu tive o parto dos meus sonhos - num sábado de sol, com meu marido ao lado, e meu filho rapidinho em meus braços. Foi mágico.

Agradeço às listas e aos relatos todos que eu li durante a gravidez, que me ajudaram a passar por tudo isso de maneira digna e ter um parto natural decente, sem intervenções. Ao meu marido, por me apoiar e estar ao meu lado naquela hora tão mágia, mesmo sendo contra o parto normal. E, acima de tudo, a Deus, que me proporcionou a benção e a alegria de ser mãe.

***
Agnes Tanchéla, mãe do Bruno, nascido de parto natural hospitalar.
Leia também o depoimento da Agnes sobre a importância do grupo.
Leia também outros relatos de parto.

Um comentário:

Jessica Del Rio disse...

desculpa a objetividade diante de um momento tao sagrado...
mas estou com pouco tempo e sem enxergar saidas; ja em 35 semanas em busca de um parto o mais natural possivel...
Tambem estou com o santa catarina como destino
Como ficou a parte burocratica? vc teve que pagar o plantonista a parte ou como o convenio cobriu?

 

Apoio

Aqui você encontra material sobre evidências e boas práticas relativas à saúde e ao bem-estar da dupla mãe-bebê. Fique à vontade e entre em contato, adoramos uma boa conversa! Envie um e-mail para grupomaternamente@gmail.com ou entre no grupo do Facebook.

Território

Atuamos principalmente em Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra (o ABC paulista), mas também na capital paulista e em outros municípios do Estado de São Paulo.

Articulação

Procuramos nos articular com outros movimentos sociais e com as instâncias gestoras, com o fim primordial de defender os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e de instaurar um novo paradigma de assistência à saúde da mulher.