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26 de outubro de 2013

May Pazinato - conveniências, desrespeito e violência no Santa Joana

Relato do meu parto no Santa Joana- SP 02/09/13

Aqui vou escrever como meu sonho de parto normal foi destruído pela maternidade Santa Joana. Durante a gestação do Felipe, fui atrás de informação e descobri o grande mercado lucrativo das cesáreas... as desculpas dadas para que o GO faça e as desvantagens e riscos de uma cesárea eletiva. Eu e meu marido optamos pelo parto normal, queria que o Felipe viesse ao mundo da forma mais natural possível, com bastante amor, vindo direto para os meus braços e meu peito para se aconchegar e mamar. 
Comecei a sentir as contrações e cólicas no domingo, dia 01/09 pelas 06h da manhã. Imaginei que estava chegando a hora mas segui meu dia normalmente. Fui almoçar na casa dos sogros, ao mercado, recebi minhas amigas no fim do dia mas, nesse momento, já estava com contrações mais doloridas e a cada 20 minutos. De noite assisti ao fantástico e resolvi tomar banho para relaxar... Por volta das 23h já estava com contrações a cada 8 min e bem doloridas. Foi então que depois de um tempo ainda, resolvi ir para a casa de parto do Sapopemba. Deixo claro que as minhas contrações estavam totalmente suportáveis e estava totalmente preparada para o meu parto normal. 


Na casa de parto do Sapopemba, por um erro (um triste e terrível erro) da obstetriz, ela achou que havia mecônio e me negou a permanência e o consequentemente o parto lá... fui mandada embora. Neste momento minhas contrações já estavam a cada 5 minutos e acho que o medo do meu plano B dar errado fez com que ficasse mais doloridas. O plano B era ter o meu parto normal no Santa Joana com o meu marido ao meu lado a cada instante. Como tinha medo da minha GO não respeitar a minha vontade do parto normal, queria tentar conversar com o obstetra de plantão para ele fazer. 
Chegando no Santa Joana, fui colocada numa cadeira de rodas e levada para uma sala, mandaram meu marido esperar do lado de fora. Já não gostei disso... como estava no meio de uma contração não consegui falar. Por estar com dor, gemi baixo tentando me concentrar, nisso uma enfermeira que estava no outro extremo da sala pergunta alto: “você está com dor??”, ignorei e ela perguntou de novo, respondi “não, estou com cócegas!”. Fiquei irritada, numa maternidade, a enfermeira não consegue perceber que estou com contrações? Porque não veio até mim e perguntou, tinha que berrar do outro lado? Quando acabou a contração, falei que não ia ficar ali sem o meu marido, a enfermeira disse que ele não podia ficar ali, o impressionante é que eu estava SOZINHA naquela sala, o porque ele não podia ficar? Disse que não ia ficar sem ele e se ele estava aguardando no corredor, que eu ia aguardar junto e sai andando. Nisso veio outra contração e fiquei de pé abraçada no meu marido.
Não sei dizer quanto tempo passou, mas fui chamada para passar pelo médico. Ele perguntou umas coisas e o meu marido respondeu por mim pois não conseguia falar. Me levaram para de trás de um biombo, tirei a roupa e colocaram o avental da maternidade em mim, fizeram exame de toque muito dolorido e viram que eu estava com três dedos de dilatação. O médico perguntou se eu já havia ligado para a minha obstetra, disse que não, que queria o parto normal mas que não precisava ser com ela. Ele perguntou o nome completo dela, informei e pouco depois escutei ele ao telefone falando com ela!! Achei absurdo porque ele não me perguntou se queria que ele ligasse... a minha obstetra não era coberta pelo convenio. O médico entregou uns papeis pro meu marido e esse foi o último momento que o vi.... 
Fui levada pela enfermeira para outra sala na cadeira de rodas e eu disse que queria esperar meu marido, que não queria me separar dele e ela disse que ele ia apenas fazer minha ficha e que já iria encontrar comigo. Nessa outra sala havia três enfermeiras. Minha contrações, acho que pelo nervosismo estavam mais fortes ainda. Uma enfermeira começou a me fazer umas perguntas, só que por eu estar com contrações não conseguia responder direito... aquilo foi torturante!!! Quando estava numa contração, as enfermeiras me olhavam com desdém, a impressão que tinha era que iam me perguntar “já acabou??”. Parecia que era errado eu estar desse jeito, como se fosse absurdo eu ter ido para lá em trabalho de parto. Quando sai de lá, pedi de novo pelo meu marido, estava sozinha no meio de gente hostil que estavam pouco se importando com a minha dor, me disseram que logo ia ver ele. Fui levada para outra sala e me disseram para aguardar que a enfermeira já vinha. Me deixaram sem meu celular, não tinha como falar com meu marido, não sabia o que estava acontecendo. 
Na minha cabeça só se passava que eu queria ir para a sala de parto normal, tomar um banho, abraçar o Emerson, poder andar para acelerar o trabalho de parto.... ninguém me deixava em paz, não queria conversar com ninguém daquele hospital mais. E o mais importante, na casa da parto a obstetriz disse ter visto mecônio, ninguém no Santa Joana checou.... Depois de um tempo esperando a enfermeira entrou, de novo as mesmas perguntas... Perguntei sobre a sala de parto normal e ela disse que todas estavam ocupadas. Na hora eu gelei, “como assim?? Madrugada de domingo para segunda no Santa Joana, onde todo mundo faz cesárea e todas as salas de parto normal estão ocupadas?”.... 
Me levaram para uma outra sala que chama de pré parto, queria andar, me mexer para acelerar o trabalho de parto mas não me deixaram, me colocaram no cardiotoco e a única forma que havia para ficar era deitada, a PIOR posição que há quando se está com contração. Na hora que a enfermeira foi colocar o cardiotoco em mim, ela me virou como se eu não pudesse me mexer e nisso, eu estava no meio de uma contração, ela viu a tatuagem que tenho nas costas. Sem pensar duas vezes ela chamou as outras enfermeiras para ver pois achou bonita... eu deixei? Eu fui consultada se podia? Me senti um objeto nesse momento. Eu fiquei pedindo pelo meu marido, acho que para me calarem elas disseram que ninguém sabia onde ele estava... Como assim não sabiam?? 
Tinha certeza que ele estava desesperado querendo saber de mim.... durante os últimos meses de gestação falava para ele não me deixar sozinha nenhum minuto durante o trabalho de parto.... no carro indo para a maternidade, eu falei “pelo amor de Deus, não me deixa sozinha”.... duvido que ele estivesse tranquilo. Acho que para elas fingirem que estavam tentando depois de eu muito insistir, elas me pediram o celular dele... eu falei e falei também o celular do meu pai pois meu marido estava com ele. Disseram que ninguém havia atendido.... Uma enfermeira veio fazer um exame de toque em mim.... muito, mas muito dolorido e disse que estava com 4 dedos de dilatação. A impressão que tive era que ela queria que eu desistisse... ela quis mostrar que ia demorar muito. Mas, ainda fiquei ali, aguentando. 
Nessa sala que eu estava, eu estava sozinha, não havia mais nenhuma mulher em trabalho de parto junto comigo. Depois de um tempo, pelas fortes dores eu comecei a sentir enjoo, acabei vomitando na maca e no chão. Me senti tão mau, as enfermeiras olharam com cara de nojo, fiquei com os olhos cheio de lagrimas por aquela situação em que eu estava... por mais que tivesse vários lugares ali, ela me deixaram onde eu estava, colocaram um pano debaixo de mim, onde havia escorrido o vomito, mas não me mudaram de lugar e ninguém foi limpar, fiquei ali, em cima do meu próprio vomito com aquele cheiro de azedo não sei por quanto tempo. Após um tempo veio uma enfermeira querendo me colocar no soro, disse que não queria, que não precisava e ela foi puxando meu braço, respondi que não queria ocitocina e ela disse que era apenas um soro e foi me injetando. Ela colocou no pulso mas a veia estourou, doeu demais.... ai ela mudou e colocou na dobra do braço. Não tinha mais condições de falar, lutar por algum direito naquele lugar, queria meu marido, precisava de um abraço, não aguentava mais as dores naquele inferno, desisti... pedi pela cesárea. 
Não sei dizer quanto tempo passou, mas me levaram para centro cirúrgico, uma contração atrás da outra... Ao sair escuto uma enfermeira falando “elas querem o parto normal mas nunca aguentam” e uma risada... Quando entrei lá vi a minha obstetra. Ainda hoje me pergunto o porque ela não foi falar comigo enquanto estava no pré parto?? Ela me convenceu a ter meu filho no Santa Joana, falou super bem de lá, da sala de parto normal, que ia ter a bola para relaxar, poderia tomar banho, teria a banheira e se eu quisesse poderia ter meu filho nela... Não vi nada disso, ainda acho que é lenda pois não fui a única enganada, há outras mulheres. Ela poderia ter ido falar comigo, perguntado se tinha certeza da cesárea... Me deram uma injeção nas costas e as contrações acabaram... Nessa hora comecei a chorar, meu choro aumentou em muito quando colocaram o pano na minha frente e me amarraram, não queria ser amarrada! Meu sonho era ser dona do meu próprio parto, poder me mexer, comer, tomar água... nem água nesse tempo todo me serviram, nem depois que vomitei!! Boca seca, o gosto amargo nesse tempo todo. 
Quando vi meu marido eu desabei.... ele estava chorando também, já veio me pedindo desculpas, dizendo que não deixavam ele entrar. A sensação de impotência era muito grande. A comprovação maior de que eu não mandava nada ali, foi quando a minha obstetra mandou abrir e olhei pro parto e vi minha família do outro lado de um vidro. Ninguém me perguntou se eu queria que vissem meu parto. Para mim era um momento íntimo entre eu e meu marido, e não um filme para ser assistido pelo outros... me verem aberta e tão fragilizada para mim foi humilhante. Eu sempre disse que ninguém ia ver meu parto, que não queria... Quando meu filho nasceu, tive que pedir para que fosse desamarrada... se não pedisse ninguém ia fazer. 



Vi meu filho através do colo do meu marido... foi triste, bem diferente de como sonhei... meu bebe foi levado embora e só pude ver ele direito e o segurar mais de 6 (seis) horas depois... tantos meses com meu filho na barriga, horas em trabalho de parto... para demorar tanto para ver meu filho por conveniência do Santa Joana!! Dizem que o bebe tem que ficar num berço aquecido. Ridículo!! Quer lugar mais aquecido e cheio de amor do que o colo do pai ou da mãe?? E depois de ser costurada, ao ser levada da sala, escutei minha médica falando “ainda bem que o trabalho de parto dela não evoluiu, tenho uma cesárea marcada para daqui a pouco”. Perguntei para a médica se havia mecônio e não, estava tudo perfeito...

11 comentários:

Fabi disse...

Jesus... e agora José?... ontem foi vc, hj é outra, amanhã serei eu... De qualquer forma, gostaria de parabenizar pelo bebê, que vc amamente seu pequeno com muito amor e carinho. bjs

Anna Carolina disse...

Sinto muito, muito mesmo... Espero que vc fique bem consigo mesma, com seu marido e com seu bebê e que se encha de forças para processar esses hospital por danos morais!!!!!!! Descaradamente descumpriram a Lei do Acompanhante, ganho de causa quase certo! Boa sorte e muito amor e carinho pra vc!

Gislaine disse...

Nossa, quase chorei com o seu relato. Sempre sonhei com parto normal e de amamentar logo depois do nascimento do meu filho e nao tive apoio do meu obstetra. É triste essa realidade. Mas de uma coisa eu sei, no meu segundo filho vou lutar pra ser tudo diferente. Obrigada por compartilhar conosco.

Anne Lucy Vieira disse...

Nossa... impossível não se emocionar e muito...

Lidia Alcantara disse...

Eles fazem o que querem conosco nesse momento, meu segundo filho me fizeram cesárea sendo que eu queria normal assim como o primeiro(q nasceu em hospital público), mas hospital particular atua como fábrica.... Qto mmaior a produção, maior o lucro.

Bianca disse...

Impressionante e imensamente triste. Gostaria de saber qual foi o desfecho desta história. Processou judicialmente o hospital e a obstetra?

Glazielle Reis disse...

Apesar de estar lemdo esse relato 3 anos depois, achei curioso o q sua medica havia dito sobre o hospital... a minha atual diz a mesma coisa... pode me falar o nome de sua obstétra?

Glazielle Reis disse...

Apesar de estar lemdo esse relato 3 anos depois, achei curioso o q sua medica havia dito sobre o hospital... a minha atual diz a mesma coisa... pode me falar o nome de sua obstétra?

Erika Borges disse...

Eu estou processando o Hospital Santa Joana pela morte dela.
Me entregaram o corpo dela sem óbito e a polícia encontrou 4 fraturas e sinais de sufocamento.
Está no Tribunal do Juri na Barra Funda.
Serão condenados.
Visitem a página:
https://www.facebook.com/santajoana13122011/

Vicae disse...

Tive meu filho no Santa Joana e gostei muito do atendimento.O que nao gostei apenas,foi de ser induzida a fazer cesariana.Mas ate entao,nao sabia que existia essa"cultura" do parto cesareo aqui no Brasil.
E acreditem,em qualquer hospital particular e assim.So que a questao do atendimento e das acomodacoes e mil vezes melhor do que ter pelo SUS.
O que pode ter acontecido com essa moca e,talvez ela nao tenha feito a visita antes na maternidade.Eu fiz e escolhi este hospital pela qualidade no atendimento e nas acomodacoes,pois la nao tem enfermaria...sao quartos individuais.
Na visita,me informaram todos esses procedimentos e a minha ginecologista ja havia me falado que o hospital faz contato com o medico,mesmo que o convenio nao cubra,pra saber da situacao da paciente.Entao ja estava ciente de todo o processo.So nao gostei do parto cesarea.Mas de resto,foi tudo bem.
Infelizmente,no Brasil existe essa cultura da cesariana.Coisa que nos EUA,por exemplo,nao existe.La as mulheres tem os filhos de partos normais nas maternidades ou entao em casa com parteiras.
Nos meus proximos filhos(pretendo ter pelo menos mais dois ou quem sabe,ate mais) ,quero parto normal,nem que tenha no meio da rua..kkkkkk...

Vicae disse...

Concordo plenamente com voce.Lamentavel isso.Por isso,mudei de opiniao,e prefiro hospital publico.
No hospital publico as mulheres conseguem ter parto normal.

 

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