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11 de abril de 2021

Nascer e morrer, os números contam

Recentemente publiquei alguns gráficos no Instagram falando do número de residentes no ABC que dão à luz: muitas delas vão para outros municípios na hora de ter o bebê, e sabemos por experiência que isso é verdade. Chamou a atenção na série de gráficos como o número de nascimentos vem diminuindo ao longo dos anos, e provocada pela mana Deborah, prometi que estudaria a respeito para entender melhor essa tendência.

Mal tive tempo de começar, deparei-me com o alerta do Prof. Miguel Nicolelis, de que em abril deste ano o número de óbitos ultrapassaria o número de nascimentos no Brasil, em um resultado inédito na nossa história. Saiu, depois, uma matéria no El País falando sobre isso, e de forma não surpreendente, um município da nossa região é citado já na capa da matéria.



De repente eu me peguei tentando desacreditar nessa informação. Inventei várias desculpas mentais para esse disparate, puxa, talvez o número de nascimentos já estivesse se reduzindo tanto que isso já fosse acontecer mesmo. Precisa ver direito esse dado aí, pensei. Bem, corri para olhar as bases de dados públicas que geralmente consulto, do Ministério da Saúde, para verificar a notícia eu mesma. Ocorre que essas bases demoram muito a ser atualizadas, e obviamente isso não é à toa. Então segui a pista da matéria do El País, e abri o site dos cartórios de registro civil.

A partir desse site é possível consultar números do movimento do registro civil: o que os cartórios registraram de nascimentos, casamentos e óbitos. Na emergência da pandemia, criaram ainda uma consulta específica para a Covid-19. A base das informações são as declarações de nascido vivo (preenchida pelo hospital/maternidade ou pela pessoa que prestou assistência ao parto), de óbitos (a famigerada DO, também fornecida por um estabelecimento ou profissional de saúde) e de casamentos. Não há referência, no site, sobre quando foi a última atualização dos dados (ou tem e eu não vi). De toda forma, é uma possibilidade de consulta, ainda que os dados sejam preliminares. É importante ter isso em mente. Não sei como os dados do registro civil são tratados, mas na área da saúde sabe-se que muitas vezes é preciso retificar algumas informações, passados meses ou mesmo anos da ocorrência. Por exemplo, as mortes de mulheres em idade reprodutiva precisam ser investigadas, para descartar que tenham sido relacionadas à gestação, ao parto ou ao aborto. Isso serve para identificarmos com mais precisão as mortes maternas e, assim, criarmos políticas para seu enfrentamento (o que não necessariamente tem acontecido, diga-se).

Mas voltando aos dados de nascimentos e óbitos... Como a plataforma do registro civil é muito ruim para tabular dados, peguei dela as informações de 2020 e 2021, que não estão disponíveis em outras fontes. Tirei dados de anos anteriores da Fundação Seade, que têm como base também as informações do registro civil, mas que passam por uma análise de consistência antes de irem ao ar. Os dados mais recentes dessa base são de 2019 e mostram que de fato desde 2009 vemos uma pequena tendência de redução de nascimentos. Mas algo muito discreto.

Fonte: Fundação Seade.

E as mortes? Olhando para os números absolutos, elas vêm aumentando desde 2009 – mas não me parece um acréscimo alarmante, pelo menos não à primeira vista. No gráfico abaixo, usei a mesma escala do gráfico de nascimentos, de forma que é possível comparar a magnitude dos números, ou seja, o volume de nascimentos e óbitos entre os anos de 2009 e 2019 – um intervalo de dez anos antes do início da pandemia, portanto.


Fonte: Fundação Seade.


Ok, até aqui, nada muito surpreendente, certo? Número de nascimentos em patamar ainda muito superior ao de mortes. O que significa que a população da região foi crescendo continuamente ao longo desse período, e possivelmente com mais pessoas chegando às idades mais avançadas. (Parêntese. Não faz muito tempo que eu descobri que envelhecer é um privilégio: pessoas pretas e pardas vivem muito menos do que as brancas. E esse é um assunto tão sério que merece ser tratado de maneira bastante cuidadosa, futuramente.)

Mas se até 2019 não havia nada de muito surpreendente entre nascimentos e óbitos, o que aconteceu em 2020? 


Fonte: Portal da Transparência do Registro Civil.

Como se nota, há uma variação no número de nascimentos ao longo do ano, o que é esperado. Isso aconteceu também em anos anteriores – somei os nascimentos registrados na Região do ABC para o gráfico não ficar muito confuso, mas na imagem a seguir dá para perceber a variação ao longo do ano, e também dá para notar que em 2020 houve menos nascimentos em comparação com os dois anos anteriores. Mas algo muito discrepante? Não tanto assim.

Fonte: Portal da Transparência do Registro Civil; Fundação Seade.


E os óbitos? No início da pandemia, o que mais ouvimos foi da importância de frear a disseminação do vírus da Covid-19 para "achatar a curva" da doença, numa referência justamente ao gráfico do número de casos. Sabíamos que muita gente que ficasse doente iria precisar de hospital e que nosso sistema de saúde não daria conta de atender todo mundo se não evitássemos que a doença se espalhasse. Hoje já sabemos muito mais sobre o vírus e a doença que ele causa, mas é fato que não só o número de hospitalizações cresceu, como também o número de mortes. Sem separar os óbitos ligados à Covid, colocando tudo no mesmo balaio, é possível ver que o número total de pessoas que morreram no ano passado aumentou muito em junho – nosso pico de mortes, até então.

Fonte: Portal da Transparência do Registro Civil.


Tenho certeza de que muitas pessoas vão dizer que isso é também uma variação ao longo do ano, como vemos entre os nascimentos, e que portanto não há o que se comentar a respeito. Pois então, fiz com os óbitos o mesmo que fiz para os nascimentos, somei o número de mortes da região por mês, de 2018 a 2020.


Fonte: Portal da Transparência do Registro Civil; Fundação Seade.


A linha cor de laranja, mais clara, mostra o número de mortes no ABC paulista em 2020: vejam como o pico do meio do ano é muito mais acentuado do que nos anos anteriores. A linha até voltou a se aproximar à dos anos anteriores, mas terminou 2020 em ascensão. Isso significa que em 2020 tivemos muito mais mortes na região do que costumávamos observar. E o que veio depois – ou seja, neste ano de 2021 – é realmente assustador. Fiz um gráfico juntando nascimentos e óbitos da região, de janeiro do ano passado até março deste ano.


Fonte: Portal da Transparência do Registro Civil.


A linha azul é dos nascimentos. A cor de laranja, dos óbitos. Não bastasse o pico de junho de 2020, vemos aí um Everest em março deste ano, ultrapassando em muito o pico do ano passado e o número de nascimentos do mesmo mês. Caso não tenha ficado suficientemente visível, vou colocar outro gráfico, que traz os mesmos dados, mas expostos de uma maneira diferente, separando 2020 de 2021. Janeiro, fevereiro e março estão à esquerda.


Fonte: Portal da Transparência do Registro Civil.


O número de óbitos inclui aquelas pessoas que perderam a vida pela Covid-19, mas não só. Há também aquelas que ficaram doentes no ano passado, mas nunca se recuperaram plenamente, e morreram agora por problemas neurológicos ou do coração, por exemplo, com sequelas da Covid-19. Há ainda as mortes de pessoas com problemas diversos, que não foram atendidas no tempo adequado, por falta de vagas no hospital ou porque ficaram com medo de procurar um serviço de saúde. Tem também as mortes "que sempre aconteceram", por outras causas variadas, entre elas a de mulheres que não receberam cuidado adequado na gestação, no parto e no aborto, por exemplo.

Estou dizendo que pela primeira vez na história recente da nossa região registramos mais mortes do que nascimentos. Isso não aconteceu porque o número de nascimentos caiu, ou seja, porque as pessoas estão decidindo ter menos filhos, não! O número de nascidos permanece relativamente estável. Os estudiosos do tema (que são chamados de demógrafos) dizem que o número de mortes só viria a ultrapassar o de nascimentos no Brasil em 2047 – em uma transição lenta e gradual, como aconteceu na maior parte dos países ricos.

Quais as consequências para a nossa sociedade? Se continuarmos tendo muito mais mortes do que nascimentos, a nossa população (o número de pessoas que moram na região) vai diminuir. E de um jeito brusco, inesperado, com muita tristeza, pelo excesso de mortes, e não pela decisão das pessoas de terem menos filhos. De imediato, já podemos sentir esse efeito, no luto das famílias, que perdem uma, duas, três pessoas próximas em um intervalo de tempo muito curto. Como essas famílias se reestruturam? Emocionalmente, é devastador. E financeiramente? Embora mais homens estejam morrendo de Covid-19, as mulheres sofrem o impacto dessa pandemia de maneira devastadora, porque são elas que cuidam de todas e todos, são também a maioria na linha de frente, como profissionais de saúde. A Agência Pública publicou uma reportagem muito competente sobre famílias que perderam sua mãe na pandemia.

Mas para além dos reflexos nas vidas individuais de quem fica, precisamos pensar também nos significados dessas mortes em excesso para a nossa sociedade. Em uma perspectiva coletiva, de uma hora para outra vimos uma geração de pessoas mais velhas ser dizimada. Aos poucos, o Brasil vinha conquistando uma maior expectativa de vida, com melhores condições de sobrevivência para a população, mas isso se perdeu em questão de meses, e ao fim de 2020 já havia quem apontasse a redução na expectativa de vida em dois anos. Isso é muito significativo, especialmente se pensarmos que para muitos grupos o impacto deve ter sido ainda maior, por exemplo, para pretas e pardas e para povos indígenas. Em um contexto de crise como o que já vivíamos, isso é muito relevante, visto que muitas famílias tinham como única renda a pensão ou aposentadoria da pessoa idosa com quem viviam. Era a vó ou o vô que tinha um dinheirinho todo mês para garantir a feira. E agora, ela ou ele, ou os dois, se foram. Para um governo federal que não se importa com as pessoas que estão padecendo, isso é uma ótima notícia, pois significa a "economia" de algum dinheiro no pagamento desses direitos. Isso é de uma perversidade terrível, e tem até nome, chama-se necropolítica, quando o Estado (o governo da nação) efetivamente escolhe quem vai morrer, por meio de suas políticas ou pela omissão, por permanecer sem qualquer ação quando deveria tomar alguma atitude.

Se do ponto de vista das finanças familiares essas perdas são já sentidas, na perspectiva cultural e histórica talvez demoremos um pouco mais para compreendê-las. Embora não tenhamos o costume de valorizar os saberes das pessoas mais velhas, são elas a carregar nossas raízes, nossas origens, as histórias de nossas vidas antes mesmo que nascêssemos. As memórias, as práticas, as lutas, e mesmo os carinhos e afetos se foram, de maneira irrecuperável.

Ainda falando da necropolítica, mesmo com as festas das elites ricas sendo noticiadas na TV, sabemos que quem mais sofre com a Covid-19 são as pessoas que precisam sair para trabalhar todos os dias. Quem fica vivo tem de se virar no meio da pandemia, sem auxílio governamental, sem políticas que permitam o trabalho seguro, com uma perspectiva muito longínqua de tomar vacina.  São essas pessoas que se expõem no transporte público vergonhoso (sempre lotado, nunca alvo de melhorias, nem mesmo na pandemia), no trabalho sem carteira assinada ou com direitos precariamente garantidos, sem equipamentos de proteção, sem adequação do ambiente de trabalho e sem orientações adequadas sobre como se proteger, com moradias superlotadas, sem infraestrutura e sem possibilidade de isolamento de familiares com quem moram... Nesses contextos, sobreviver é mesmo um ato de resistência.

Agora, falando de um aspecto mais biológico, vemos que cada vez pessoas mais jovens estão se infectando e morrendo de Covid-19. Sobre isso, é importante dizer que o vírus que causa a doença não se manteve o mesmo desde o início da pandemia, ao contrário, como um bichinho muito esperto que é, tem se modificado para infectar cada vez mais pessoas e de maneira mais avassaladora. E nós estamos contribuindo para isso, pois quanto mais o vírus circula, mais propenso ele fica a se modificar (sofrer mutações). Isso quer dizer que depois de acabar com a memória de muitas famílias, e de ameaçar a subsistência de outras tantas, matando os idosos, agora estamos vendo a pandemia ameaçar a força de trabalho ativa, aquelas pessoas que estão no batente todos os dias, que saem para ganhar o pão. Se as famílias perderam avós e avôs no ano passado, agora estão perdendo mães e pais. 

Depois de olhar esses gráficos, eu não sinto outra coisa, a não ser horror. O horror de pensar que amanhã, dia 12 de abtil, o Estado de São Paulo relaxa suas medidas já nada austeras no combate à pandemia. Com mais pessoas circulando pelas cidades, inclusive estudantes, o que podemos esperar para os próximos meses? Será que prefeitos e secretários do ABC paulista usarão o conhecimento científico? Será que efetivamente tomarão atitudes eficazes para gerir a pandemia? Ou será que continuarão de olhos fechados a esses dados? E que ninguém se iluda com os números absolutos. Nenhuma cidade do ABC paulista se safou do excesso de mortes em março deste ano. Comparando o número de mortes de março deste ano com o de março do ano passado, vejam só quem teve o maior aumento porcentual.


Fonte: Portal da Transparência do Registro Civil.

A cidade que se gaba de ter o maior IDH, de ser um ótimo lugar para viver, de estar vacinando muita gente... São Caetano do Sul, cidade de população e território reduzidos, mas por onde muito dinheiro circula, foi a que teve o maior aumento proporcional de óbitos em março deste ano na comparação com março do ano passado, quando a pandemia ainda não havia se instalado plenamente por aqui. Foram quase três vezes mais mortes. Logo haverá alguém a reclamar, dizendo que o município é pequeno e que, portanto, o número absoluto de mortes é reduzido, contexto em que é fácil ter um aumento de 300%, por exemplo, quando se passa de 2 para 6 óbitos. Argumento semelhante poderia ser usado por Rio Grande da Serra, que em 2020 teve uma média mensal de 19,9 óbitos e, em março de 2021, registrou 34 mortes. Já em São Caetano a média mensal de mortes no ano passado foi de 146,9, com 132 óbitos em março de 2020, e 390 falecimentos em março de 2021. Como se nota, os números têm maior magnitude e, o mais relevante nessa história, o município de São Caetano tem muitas condições de atuar de maneira efetiva contra a Covid-19, se houver vontade política.  

O gráfico a seguir é uma repetição, só com um jeito diferente de mostrar os dados. Uma maneira de dizer vários palavrões ao mesmo tempo, um jeito de repetir, precisamos ouvir o que a ciência diz a respeito de como controlar a pandemia. Do jeito que vai, nós faremos parte dessas estatísticas nos próximos meses. Alguém duvida?


Fonte: Portal da Transparência do Registro Civil.










 

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