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22 de agosto de 2012

Estudar, agir, melhorar

Só sei que nada sei. Quanto mais estudo, menos entendo. Essas e outras frases resumem meu atual estado de espírito.

Prestes a finalizar o mestrado em saúde pública, conhecer um pouco mais da assistência ao parto no Brasil assemelha-se mais a uma maldição do que a uma benção. Porque sinto-me imensamente pressionada, com a enorme responsabilidade de partilhar o que estudei e principalmente de atuar de algum modo para melhorar o que vi de ruim.

Se no mundo acadêmico não me deixam complementar as análises por meio de advérbios e adjetivos, aqui sinto-me à vontade para dizer que diariamente inúmeras mulheres são solenemente e sistematicamente violadas, roubadas, desrespeitadas, violentadas em um momento único de suas vidas, o parto.

As mulheres e as respectivas crianças são submetidas a procedimentos desnecessários e que não são isentos de riscos. O que eu quero dizer com isso? Que todos os dias muitos brasileiros nascem sob o cuidado de profissionais de saúde que são suficientemente mal formados ou mal informados ou ainda mal intencionados ao ponto de provocarem ou quase provocarem danos à saúde de mãe e bebê, sejam esses danos físicos, sejam eles psíquicos.

Falo grego? Pois não. Vamos a um exemplo rápido. Droga para tirar a dor no parto. Para a maioria das pessoas, a analgesia e a anestesia são um bálsamo, uma vantagem, um advento da tecnologia, uma comodidade da vida moderna. A verdade não é exatamente essa. Drogas (ou medicamentos, tanto faz o nome) para tirar a dor podem ter seus benefícios, mas podem ter também algumas consequências deletérias na evolução do trabalho de parto, na saúde da mulher e na saúde do recém-nascido.

Ainda falo grego? Pois não. Drogas para tirar a dor podem fazer o trabalho de parto parar de progredir ou então progredir mais vagarosamente. Aquelas contrações fortes, ritmadas, que estavam dilatando o colo do útero e preparando o caminho para a chegada do bebê vão justamente se arrefecer, vão perder o ritmo, vão perder a força. E aí talvez seja necessário dar à mulher outro "remédio" para que as contrações voltem a ter força e ritmo. E aí... bem, aí uma coisa puxa outra e vem uma "cascata de intervenções", de modo que o parto que ia bem, pode virar cirurgia. Isso sem contar os impactos nos batimentos cardíacos da mãe e da criança, etc. e tal.

Mas isso... ninguém conta, ninguém avisa, ninguém avalia.

Como a analgesia e a anestesia, muitas outras intervenções são realizadas na assistência ao parto no Brasil como rotina, como parte do cotidiano e do protocolo, sem que a mulher receba qualquer informação sobre sua utilidade e necessidade, sobre seus riscos, sobre suas alternativas, sobre suas contraindicações.

Felizmente não vivemos mais na época medieval. Se antes o conhecimento do mundo ficava trancafiado sob a guarda dos monges, hoje temos a vasta Internet como fonte (quase) gratuita de pesquisa. E para o meu regozijo, as boas fontes de informação têm se multiplicado na rede, como se a militância pró-parto ativo estivesse de fato procriando. A mais nova estrela dessa maravilhosa constelação é o blog da Doutora Melânia Amorim, cujo sugestivo título Estuda, Melânia, estuda!, nasceu de uma frutífera discussão no Facebook. Aos inimigos de redes sociais, #dica, também há mundo inteligente nas novas mídias.

PS: Em tempo, sábado tem encontro na Clínica Spacci!

Um comentário:

Elis disse...

Fantastico, perfeito, compartilho de tudo ue vc escreveu e sou testemunha e sobrevivente desse sistema ridiculo doente.
Procuro a cada dia pensar que o qe aconteceu comigo foi um despertar para um ativismo legitimo tbm e embora ainda machucada, eu busco forças para nao desistir de lutar e levar de alguma forma informaçao de qualidade e com embasamento cientifico para as pessoas tbm....
outro dia li no blog das mamiferas ma frase célebre, nem me lembro o autor, mas diz assim: "Nao importa o que fizeram de mim, mas sim o que eu faço com o que fizeram de mim"- e isso se tornou um canto para mim.
Amei suas palavras, seus pesamentos.....me emocionei..

 

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