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5 de agosto de 2011

Verbo transitivo, verbo intransitivo

Hoje, a caminho do trabalho, ouvia a conversa de duas mulheres sobre gravidez e amamentação. Uma delas contou que tinha filhos gêmeos, e que durante a gravidez sentia-se muito inchada, embora não tivesse ganhado muito peso. A surpresa grande veio quando os filhos nasceram e ela precisou amamentá-los. "Nunca tive leite grosso, forte, mas mesmo assim eles mamaram bem. Até que chegou uma hora que eu não dei mais conta, e aí dei leite de supermercado mesmo e eles tomaram tudo. Aí pronto!"

A outra mulher contou então que se sentia muito frustrada por não ter amamentado sua única filha. "Mãe de primeira viagem, sabe como é, e eu ficava chorando na maternidade porque minha filha não queria pegar o peito. O pediatra falou que era assim mesmo, mas que ela tinha reserva, e que não tinha problema. Mas aí eu fui pra casa e ela não queria pegar o peito e chorava e não dormia. Tem reserva? Como assim tem reserva, se ela tá chorando? Então minha mãe veio com uma lata de NAN e eu dei pra ela com aqueles engrossantes e ela dormiu o dia inteiro. Aí minha mãe falou, tá vendo, ela tá com fome, é só dar leite, e pronto. Mas eu ficava assim, chateada, né, eu falava, ai, o leite materno, o leite materno... mas eu não dei o peito pra ela. Ainda bem que eu só tenho uma filha."

Essas duas narrativas acabaram com meu projeto de elaborar, para hoje, um texto poético em comemoração à Semana Mundial de Aleitamento Materno. A Parto do Princípio, a Matrice e outros coletivos formularam algumas ações para incentivar a amamentação. O Ministério da Saúde preparou um material lindo de apoio ao aleitamento (e eu nunca vi a Juliana Paes tão vestida - e nunca a achei tão linda). A Organização Mundial da Saúde há anos propaga a importância do leite materno, assim como Ibfan, La Leche League, entre tantos outros organismos nacionais e internacionais.

Mas vejam só, nossa realidade cruel! Com a tal da cultura e a "evolução" da civilização, nos distanciamos tanto da essência biológica humana e mamífera que perdemos grande parte de nossa capacidade de nos cuidar. Exemplos corriqueiros: febre é indicada pelo termômetro, dente de leite caindo requer consulta ao dentista, do mesmo jeito que menarca só é confirmada pelo ginecologista. Gravidez? Só depois do teste (ou dos testes) e possivelmente com confirmação do ultrassom, porque antes disso é impossível a mulher sentir-se grávida.

Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, vivemos uma época em que a saturação de informação midiática acaba por reforçar mitos a respeito de eventos vitais. O parto e a amamentação, por exemplo, cercam-se de historietas que inevitavelmente levam a mulher a ter medo, a se achar incapaz, a duvidar da fisiologia, a enxergar defeitos em seu próprio corpo, a duvidar até mesmo daquilo que seus próprios olhos vêem. Na prática, isso funciona como um grande boicote à vivência da maternidade como experiência corpórea, instintiva e prazerosa.

Tentarei ser mais objetiva, com uma cena extremamente corriqueira nas maternidades do país.

A mulher acabou de receber seu bebê recém-nascido no colo. Mal teve tempo de cheirá-lo, vê-lo, acariciá-lo, curti-lo, enfim. Aí entra a enfermeira encarregada da amamentação. Manda a mãe sentar, colocar o bebê na posição correta, pôr o peito pra fora, e aí começa a esfregar o rosto do bebê no peito da mãe. Se o bebê abre uma bocona de peixinho e passa a sugar, melhor para a dupla. Senão, começa aí o martírio da amamentação. O bebê não quer pegar o peito, ou a pega não está boa, ou o peito não está bom, ou tem bico demais, ou tem bico de menos, ou tem leite demais, ou tem leite de menos, ou o leite não é bom, ou... Inúmeras e indizíveis hipóteses são aventadas para explicar porque, naquele intervalo de tempo, o recém-nascido não mamou ávidamente. E a cena se repete tantas e quantas vezes forem necessárias - necessárias ao estabelecimento da amamentação ou ao desmame completo, uma ou outra opção.

Atualmente, dependemos muito do verbo, da palavra, da ciência comunicada por especialistas, para termos certeza de que podemos, somos capazes, conseguimos. E quando esse apoio não vem, todo e qualquer sinal que diga o contrário é capaz de arruinar nossos planos. Então, basta um olhar torto para entendermos que o seio não tem bico - ainda que a régua mostre mais de 2 centímetros de bico! Basta um desdenho para acharmos que o bico é grande demais - ainda que o bebê mame tão tranquilamente que até pegue no sono durante a mamada. Basta um comentário ao léu para decifrarmos o choro do bebê como fome, falta de leite.

Enfim, para acabar com a amamentação, é preciso muito pouco. Para efetivá-la e levá-la até (pelo menos) os dois anos de idade da criança, é preciso muita, mas muita perseverança. E apoio. E comunicação positiva.

É para isso que estamos aqui!

E é para isso também que tantas outras mulheres dedicaram um tiquinho de seu tempo para falar de amamentação. Porque amamentar combina com amar.

2 comentários:

Bya.Moon disse...

Belo post... realmente paciência é tudo e dedicação a minha primeira a Yasmin amamentei até praticamente um ano e deixei a coisa rolar... (deveria mais) hoje coma minha pequena Ana Flora vejo além e procura as verdadeiras inspirações e por isso blogs como estes realmente inspiram!Ela quero chegar até os dois
Obrigada

Ceila Santos disse...

Deborah e Denise,

Parabéns pelo alerta. Acho que a barreira da comunicação é nosso principal desafio para que haja não só a amamentação, mas a liberdade de escolha, o ativismo e a transformação. Acho que o dia que conseguirmos ter uma comunicação eficiente entre as mulheres que trazem esse apoio na hora certa, enfim, vamos conseguir disseminar melhor mensagens positivas.

Abraços!

 

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