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7 de agosto de 2013

Há uma década...

Para Sophia, em seu décimo aniversário.

Você e eu, desde então...

Você já me ouviu contar, sei lá quantas vezes. Sem nunca pedir sua permissão, as palavras que contam como você chegou saem da minha boca com certa facilidade. Venho assim relatando como tudo aconteceu em situações as mais diversas. Até em evento científico já contei. Mas não, nunca consegui escrever. Será que hoje dou conta?

Não dá para começar sem dizer que eu tinha um pouco menos idade que você quando pedi à minha mãe - enfermeira de maternidade em hospital militar na época, coração temporal da ditadura - que me levasse para assistir a um parto. Ela não era de me fazer vontades se fosse para comprar alguma coisa - mas movia o mundo para me conceder espaço para crescer. Foi até o chefe e pediu: minha filha quer ver um parto. Ele, oficial-médico do exército, pragmático, perguntou minha idade, sorriu e respondeu: peça a ela que volte a me pedir isso daqui a nove anos. Passei um tempo ainda querendo e depois... esqueci. Foi bom não ter visto partos cheios de intervenção, a todo custo? Foi ruim não ter cumprido o desejo? Nunca vou saber.

Passei a vida adulta oscilando entre desejar ter cinco filhos e nenhum. Mas um  dia a vontade veio com força. Foram onze meses de tentativas, até que você apareceu. Eu estava para completar 40 anos e senti umas borboletas na barriga. Esperei mais uns dias e fiz o exame de sangue: pimba! Fiquei feliz, comemorei com seu pai e com os amigos, com quem tínhamos feito a famigerada aposta das fraldas. Ganhamos! ÊÊÊÊÊ!

Algumas semanas depois, um leve sangramento "velho", um exame de ultrassom e um diagnóstico temido: aborto em curso (papo para outra história...). Que não era, né? Muita apreensão, medo, solidão no repouso absoluto. Quando a gente tira 30 dias de férias, o tempo voa. Mas 30 dias de repouso em "ameaça de aborto" parecem não ter fim.

Dali pra frente eu e você vivemos um passeio! Náuseas e dois episódios mais sérios de vômito à parte, a vida de grávida estava ótima. Eu, sempre muito disposta, nada de cansaço, via minha barriga crescer cheia de energia. Soube que você era você na segunda USG morfológica, com cerca de 22 semanas. A bem da verdade, não sabia minha DUM, e a idade gestacional era datada pela primeira USG, com cerca de 8 semanas.

Li muita coisa na internet, mas não cheguei a descobrir grupos de apoio. Encontrei o site www.amigasdoparto.com.br mas não cheguei a entender que aquilo me dizia respeito. Via relatos e fotos, mas imaginava que não precisava aprender nada sobre aquilo, pois É CLARO que eu seria respeitada em minhas escolhas. Por outro lado, virei "mestra" em aleitamento, sabia tudo sobre pega, aleitamento materno exclusivo, ordenha, estocagem, relactação.

Os meses passaram lisos, até que um dia, por volta da 37.ª semana, senti que a dinâmica estava mudando. Chamei a obstetra, que era uma colega de trabalho, e ela ficou comigo por meia hora, acompanhando a dinâmica das contrações. Parecia preocupada... Tínhamos consulta de pré-natal naquele mesmo dia, no final da tarde. No consultório, o exame de toque revelou colo ainda grosso, mas com  cerca de 3,5 cm de dilatação e a amnioscopia  mostrou cabelos pretos e líquido com grumos. Você tinha cabelos, e eram escuros!!! E eu estava querendo muito te conhecer! No entanto, a obstetra ponderou que era cedo, que você poderia engordar mais e me prescreveu um inibidor de contrações e ... mais repouso.

Na semana seguinte, ela ficou muito surpresa de ver a dilatação do colo completamente regredida a zero. Até hoje me pergunto se era isso mesmo e porquê. Voltei para casa chateada por ter tomado o tal remédio e resolvi parar por conta própria. Não demorou muito, as contrações voltaram e, no dia 6 de agosto de 2003 passei o dia todo com elas, enquanto trabalhava em um projeto frila para um hospital da região, com a equipe deles se reunindo comigo em casa.

Na noite daquele dia 6, que você já sabe ser a véspera dos seu nascimento, fui encontrar minha obstetra para fazer um exame - cardiotocografia - no hospital onde ela estava de plantão.Não tínhamos combinado de você nascer lá, embora o plano fosse um outro hospital também público, mas eu não sabia de fatos que levariam à minha internação naquela noite. Ela tinha medo de me dizer que tinha um compromisso no fim de semana seguinte fora da metrópole, e resolveu aproveitar aquele plantão para "fazer" meu parto. Eu tinha ido para lá sem nada de meu, e duas amigas foram me acompanhando. Ao exame, as contrações que eu vinha sentindo durante todo o dia apareceram e os médicos - uns três, acho - decidiram que eu estava em trabalho de parto. Eu dizia que não, que você ainda ia demorar mais uns dias para nascer (não me pergunte porque, mas eu sabia, rsss...). Subi na maca para ser examinada e, sem ser avisada, tive as membranas descoladas e o tampão removido. Aquilo doeu muito e me senti abusada, violentada. Aquele procedimento me desgovernou e me calou. Saí dali em cadeira de rodas, já com soro de ocitocina ligado na veia, com aquela camisolinha de chita florida amarela. Minhas amigas mal tiveram tempo de se despedirem de mim, e lá fui eu para uma sala de observação lotada.

A obstetra me colocou na última maca, perto da janela, e um biombo me separava das outras. Acho que tinha umas doze no total daquele lado do corredor, e do outro, lá longe, devia ter mais ou menos a mesma quantidade. Um mundo de mulheres, só eu em trabalho de parto. Perdi a conta de quantas vezes vieram me tocar, a memória daquela madrugada é difusa, mas me lembro de algumas pérolas. Certa vez, alguém veio fazer o toque apenas alguns minutos depois de outro alguém - como eu disse que não, fui sutilmente ameaçada com "você precisa cooperar". Eu ainda estava bem "eu mesma" e mandei falar com a Dr.ª X. Ela era preceptora de alunos. Eu não tinha a menor noção, então, de como as coisas ficam violentas para mulheres que parem em hospitais-escola. Em outro momento, uma moça - provavelmente residente ou interna - disse para outra que o trabalho de parto tinha "miado". Em outra ocasião, as duas conversavam sobre como a vagina nunca mais era a mesma depois de um parto normal. Falavam essas coisas como se eu não estivesse ali. Toques sucessivos, frio vindo da fresta da janela, ocitocina com dose aumentada - muitos eram os desconfortos. Ao amanhecer, o inferno havia se aberto. As contrações ficaram muito próximas e duravam muito tempo. Eu sentia como se uma serra em formato de pêndulo passasse lentamente sobre minha cintura e me abrisse ao meio, mal me dando tempo de respirar entre idas e vindas. Ah, havia doulas. Sem nenhuma autonomia de trabalho, sem instrumentos, apenas seguravam minha mão e me olhavam com compaixão. Que dureza...

Nesse momento, a obstetra voltou. Como não havia progresso desde o início da noite - estacionado em 4 cm desde minha admissão às 22:00 h da noite anterior, ela resolveu utilizar comprimidos de misoprostol no canal. Se as coisas já estavam bem difíceis, ficaram piores. Das 7:00 h às 9:30 h, cada contração me fazia pensar que morreria. O plantão dela havia acabado e ela estava assentada ao meu lado, volta e meia me dizendo que eu era a única ali com escolha, que não precisava passar por aquilo, que era só dizer que ela resolvia tudo rapidinho para mim. Me lembro de repetir, com voz de bêbada, que aguentava mais uma. Várias contrações coladas uma na outra e um exame de toque depois, ela resolveu me colocar novamente na cardiotoco. "Hmmm... o nenê tá bradi". Essas foram as palavras mágicas. Acabou a luta - será mesmo que lutei contra alguma coisa? Num instante a maca estava sendo conduzida para o centro obstétrico e eu sendo preparada para a cirurgia.

Detalhes que ficaram na memória: o anestesista, competente, delicado e lindo - eu não estava morta, hehehe! - me cumprimentou, anunciou o procedimento, esperou passar mais uma contração, explicou cada movimento que fazia e acertou na primeira, antes de vir mais uma contração (os intervalos estavam durando menos de 50 segundos, pelo que diziam). Ah, sim: antes da anestesia, assim que cheguei na famigerada sala, vomitei no chão... e disparei a chorar. O bonitão me perguntou se estava com medo e eu: "nãããão, eu tô triiiiiste!". Demoraram a trazer campos e outros apetrechos. Por conta disso, minha camisolinha de chita florida foi suspensa na minha frente e presa no suporte - um campo floridinho... A essa altura já estava com os punhos contidos por faixas de couro e minha preocupação era que já estivessem querendo me cortar enquanto eu ainda sentia as coisas. Falei disso e o cirurgião auxiliar me pediu para levantar a perna - obviamente não consegui. Alguém perguntou como seria seu nome e quando eu disse começou a cantar "Sô fio da véia ô...". Engraçadinho. Daí pra frente tudo foi rápido. Ouvi seu primeiro "ruá!" e só então pareceu uma eternidade até que trouxessem você até o meu rosto.

Você chegou chorando com ritmo. Quando te colocaram perto do meu rosto, você parou. Nossos olhos se cruzaram por alguns segundos, seu cheiro doce impregnou minhas narinas para sempre: é o mesmo perfume que fica na raiz dos seus cabelos quando sai o cheiro do xampu. Mas te levaram, sem a menor chance de nos tocarmos. No segundo que te afastaram de mim, você retomou o choro ritmado e firme.

Não somos nós, mas foi bem assim
Imagem aqui

O que aconteceu depois merece outro relato. Ficaríamos afastadas ainda por 12 longas horas. Não tivemos nenhum registro do nascimento, nem da internação ou da primeira mamada. Tudo que resta é uma foto sua no berçário, tirada por papai. Muitas coisas aconteceram naqueles dias no hospital, que também precisam ser contadas... Prometo que ainda escrevo sobre isso um dia, ok?


9 comentários:

Aline Thais de Melo disse...

Te conhecendo, sabendo da sua luta, é mais dolorido ainda ler tudo isso que você escreveu. Dez anos depois, minha vontade é te dar um abraço e dizer baixinho: vai passar, vai passar. Mas não passa, né, Deh? E porque não passa você deve ter virado essa mulher forte, guerreira, que inspira tantas outras a buscarem por atendimentos e partos dignos. Você tem minha eterna admiração. Parabéns pra Sophia, que escolheu uma mãe e tanto. Parabéns pra você, que há dez anos traz consigo esse tesouro. Bjos no seu coração, :)

ellyguevara disse...

chorei...

Debora Regina M Diniz disse...

Xará, eu já conhecia a história, mas ler todos os detalhes, dá um baita nó na garganta. Lutemos para que nunca mais as mulheres se sintam violentadas. Beijos pra vc e pra Sofia!

Carol Flor disse...

triste....

Cariny Cielo disse...

Eu me emocionei, senti sua dor, senti sua vergonha, senti seu medo, sua solidão... e, depois, senti seu amor, tanto amor... contados em primeira pessoa diretamente para quem 'de direito'!
Pelo fim da violência que destrói um momento que é só de amor!!! Avante!!!
Cariny

Anônimo disse...

Intenso
Denso
Tenso
Olhos,visceras,tendoes,tristeza,contrações Tudo se dilata na força deste relato
inflama em mim o orgulho em ser sua irmã
a Graça de ser tia da Sophia
a dadiva de ser mãe socorrista de Tawan e Thalita
e a frustração de não ter estado com vc nestas horas
mais tb na força deste relato vai se ampliando o caminho e ainda mais a vontade de dar a luz ao seu proximo sobrinho!
Eu agradeço a Deus pela força destes laços Tão ´´fibrosos´´ e tenazes!

Hannar/Eczuvia Magenta

Denise disse...

Obrigada, muito obrigada por dividir esta história conosco! Se não é lindo o enredo, a glória de ter você e Sophia perto de nós transforma e ressignifica o passado, o presente e o futuro. Parabéns pela coragem de narrar, e de amar não só Sophia, mas todas as crianças e mulheres que enfrentam ainda hoje rotinas tão semelhantes às que você encarou há uma década.

Denise disse...

Em tempo: aguardo ansiosa pelos próximos capítulos!

Anônimo disse...

To aqui mana lendo tudo de novo e sentindo tudo o que senti na primeira vez acho q ainda mais forte ,tudo de novo
A gente vai se parindo e reparindo,contraindo e dilatando te rebentar estupendas inumeras vzs,
temos que agendar seu ´´bate-papo´´ com as moças entre 15 e 25 aqui no trampo inicio de novembro rolaria?
bjus.
por onde andaria o anestesista bonitao hein ????kkkkkk

Eczuvia Hannar.
amo vcs!

 

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