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26 de março de 2016

Hospital da Mulher de Santo André: não ao retrocesso, sim às doulas!


Este texto estava originalmente concebido para dar vivas à militância e comemorar uma nova fase do MaternaMente ABC. É com certa tristeza, então, que o redigimos agora, pois nos vemos obrigadas a reconhecer alguns dos muitos limites de nossa atuação. Isso não quer dizer, contudo, que não estejamos felizes pelo crescimento desse coletivo que tem se empenhado para defender os direitos das mulheres e para melhorar a qualidade da assistência à sua saúde sexual e reprodutiva. Ao contrário, isso tem sido nossa maior motivação para continuarmos na luta.

Dialogar. Perseverar.
Não sem dificuldades, começamos a ocupar espaços participativos já instituídos e passamos a dialogar com serviços e gestores para cavar outros espaços. Um dos frutos da atuação deste coletivo foi a abertura do Hospital da Mulher "Maria José dos Santos Stein", de Santo André, à entrada de doulas, além do/da acompanhante da mulher. Embora pareça algo simples, essa mudança tem forte poder simbólico, em especial se pensarmos que muitas maternidades sequer cumprem a lei federal que garante à mulher o direito a um/uma acompanhante de sua escolha. Vale lembrar que essa lei já tem mais de dez anos.

Ficamos muito contentes com essa conquista: além de todas as questões ligadas à necessidade da doula na cena do parto contemporânea, sua presença pode ampliar a satisfação da mulher e da família com a experiência e tem potencial para produzir melhores resultados em termos de saúde da mulher e da criança. Para nós, é argumento suficiente para reivindicar o lugar da doula no parto e lutar por sua permanência.

Mas justamente por esses motivos, nem sempre encontramos os cenários mais favoráveis para a mulher. Aliás, verdade seja dita, na maioria das maternidades o cenário é adverso à parturiente. O país não chegou ao topo do ranking de cesarianas à toa. Nem de uma hora para outra. Também não é à toa que uma em cada quatro mulheres reconhece ter sido vítima de violência na assistência ao parto ou abortamento. Esse processo dura já décadas e é esse o contexto em que atuamos. Se tudo fossem flores, nosso grupo sequer teria razão de existir.

Reconhecendo o local de onde falamos e onde atuamos, partimos para a notícia triste: o Hospital da Mulher proibiu a entrada de doulas. A decisão do hospital não nos foi comunicada oficialmente, mas desde já lamentamos e pensamos que esse retrocesso na política institucional prejudicará as mulheres e suas famílias.

Nós, Deborah e Denise, estamos nesse caminho há uma década. Encontramo-nos num desses acasos virtuais – não foi em aplicativo de relacionamento, mas em uma rede até mais potente em promover encontros felizes. Essa rede é a Parto do Princípio, de que fazemos parte ainda hoje. Na nossa região, iniciamos os trabalhos timidamente em 2009, com reuniões mensais para acolher mulheres que buscavam um parto respeitoso e para divulgar informações baseadas em evidências. Dessas reuniões nasceram outras ações e pouco a pouco este grupo se estabeleceu.

Ao longo do tempo e com os conhecimentos já acumulados de outras experiências, azeitamos nossa forma de atuação e construímos nossas missões e objetivos. Não é à toa, assim, que nossa primeira missão é “promover o debate político e acadêmico e subsidiar a formulação de políticas no âmbito da assistência à saúde reprodutiva da mulher, de modo a favorecer sua autonomia, com respeito às evidências científicas e às propostas da Organização Mundial da Saúde na assistência à gestação, ao parto e puerpério”.

É por isso, então, que continuamos conversando, trabalhando e pensando. Nós queremos que todas as mulheres tenham direito a um/uma acompanhante no parto e também a uma doula. Entendemos que todos os serviços da região, inclusive o Hospital da Mulher de Santo André, têm muito o que melhorar na adoção de práticas baseadas em evidências e no respeito aos direitos das mulheres no que tange à autonomia nas decisões sobre o nascimento de filhas e filhos, à sua integridade corporal, e a uma assistência digna. Por isso mesmo, estamos em constante diálogo com a instituição, para que essa melhoria seja contínua, consistente e perene. Estamos certas de que a gestão municipal de saúde em Santo André, que ousou introduzir práticas diferentes no hospital, não deseja ser reconhecida pelo retrocesso, nem pela inconformidade com as disposições previstas na Rede Cegonha. 

Contamos com a retomada do diálogo e com o bom senso.

Um comentário:

Elisangela Alberta disse...

Grata a esse coletivo, que muito me ajudou e principalmente no que diz respeito a cidadania e empoderamento enquanto mulher, vítima de um sistema que tenta a todo custo nos inviabilizar como cidadãs, e tudo mais.Quero inclusive voltar as reuniões, mas perdi as datas neste início de ano.

 

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