É o que me pergunto toda vez que fico sabendo de bebês nascidos de cesárea antes de a mãe entrar em trabalho de parto ou mesmo antes de a gravidez chegar a 40 semanas. A impressão que eu tinha - de bebês sendo retirados da barriga da mãe cada vez mais cedo - confirma-se por dados de uma pesquisa da Unifesp.
E a velha balela de que é a mãe ou a família que pressionam o médico para fazer a cesárea continua sendo usada como justificativa para o parto cirúrgico. O que diz o Dr. Renato de Sá, no fim da matéria, é a mais pura e vergonhosa mentira, conforme diversos estudos sérios já comprovaram.
Atenção, senhores doutores, nós queremos ter parto normal. Atenção, famílias grávidas, não se deixem operar sem justificativa embasada cientificamente. Afinal, tudo o que queremos é o melhor para nossas crias, não é mesmo? E nada mais justo que elas possam nascer no dia em que estiverem prontas, não na próxima quarta, porque no fim de semana o médico viaja para um congresso na conxinxina.
23/04/2010 - 08h37
Maioria das cesáreas é marcada para antes da hora no Brasil
GABRIELA CUPANI
da Reportagem Local
Cresce no Brasil a prática de marcar o parto para assim que a gestação completa 37 semanas, momento em que o bebê deixa de ser considerado prematuro.
Um estudo da Unifesp mostra que cerca de 60% dos nascimentos acontecem com 37 ou 38 semanas de gestação --quando a gravidez dura cerca de 40 semanas. Segundo consensos internacionais, o ideal é esperar no mínimo 39 semanas. Antes disso, aumentam as chances de complicação para o recém-nascido, como desconforto respiratório e icterícia.
"A tendência é mundial. Está havendo uma antecipação do parto. Antes, os bebês nasciam com 39 ou 40 semanas", diz Cecília Draque, neonatologista do departamento de pediatria e neonatologia da Unifesp, uma das autoras do estudo.
Segundo a pesquisa, o número crescente de cesáreas eletivas (aquelas em que é possível escolher a data) tem levado ao aumento dos partos com idade gestacional inferior à ideal.
"Hoje não se espera a mulher entrar em trabalho de parto", diz o obstetra Marcos Tadeu Garcia, diretor da clínica de ginecologia, obstetrícia e neonatologia do Hospital Ipiranga. "Médicos e mães optam pelo conforto da agenda. Isso nos assusta, porque esses bebês nascem sem estarem prontos."
Bebês que nascem antes do término da trigésima-nona semana têm mais risco de precisarem de intervenções terapêuticas do que os que nascem bem no fim da gravidez. O estudo mostra que ficam mais dias internados e vão mais para a UTI. "A interrupção da gestação antes de 39 semanas só deve ser feita com estritas indicações médicas", diz Draque.
A pesquisa seguiu mais de 6.000 recém-nascidos em uma maternidade particular de São Paulo. Os bebês não tinham anomalias congênitas e as mães passaram por pré-natal.
"Conheço casos de médicos que marcam até para a 35ª semana. Qualquer coisa é desculpa: ou vão viajar para algum congresso, ou não querem que a mãe encha a paciência deles ligando às duas da manhã. A mulher também pode insistir, às vezes a avó manda marcar, ou a mulher não aguenta mais o fim da gravidez... enfim. O bebê vai precisar de um atendimento, mas o médico já passou a responsabilidade para o berçário", diz Renato Kalil, obstetra do Hospital Albert Einstein. Segundo Kalil, 12% dos bebês não prematuros nascidos de cesárea passam pela UTI. De parto normal, só 3%. "O parto normal está mais falado, mas a indicação de cesárea continua a mesma baixaria", afirma.
"Muitas vezes a própria família pressiona o médico", afirma Renato Augusto Moreira de Sá, presidente da comissão de perinatologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.
Antecipar o parto também é perigoso porque há chance de erro de cálculo da idade gestacional. Se a mulher não fez um ultrassom no início, que estima com maior precisão essa idade, ela pode estar grávida há menos tempo do que pensa.
27 de abril de 2010
26 de abril de 2010
Cotidiano
Assim é o desrespeito à Lei do Acompanhante. Acontece todo dia, em todo lugar. E não à toa a notícia é publicada no caderno Cotidiano do jornal. Lamentável.
25/04/2010 - 03h00
Maternidades de SP cobram para pai ver parto do filho
VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO
da Reportagem Local
A administradora de recursos humanos Roberta Meza, 41, não sabia. A secretária-executiva Patrícia Fernandes Lopes Felipe, 32, também não. Antes de ter filhos há alguns meses, as duas percorreram maternidades particulares de São Paulo para conhecer os serviços antes de decidir onde fariam o parto.
* Veja resolução da Anvisa sobre serviços no parto
Por desconhecer a resolução que garante a presença de um acompanhante de livre escolha da mulher, pagaram R$ 147 para que os maridos assistissem ao nascimento dos bebês.
Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e Procon dizem em uníssono que a cobrança é abusiva e claramente ilegal.
Pesquisa da USP mostra que diversos indicadores melhoram com a presença do acompanhante no parto, como diminuição da dor e índices menores de depressão pós-parto.
Ao longo da semana, a reportagem refez os passos de Roberta e Patrícia e visitou cinco maternidades paulistanas: Einstein, Pro Matre, Santa Catarina, Santa Joana e São Luiz.
Todas, menos o Einstein, cobram entre R$ 113 e R$ 147 para presença do pai na hora do parto, o que chamam de "taxa de paramentação" para cobrir os custos do avental cirúrgico.
Com o comprovante de pagamento do parto em mãos, Roberta, mãe dos gêmeos Rute e Miguel, de 11 meses, diz ter pago a taxa para o marido acompanhá-la, mas que a cobrança não foi incluída na nota fiscal emitida pela maternidade Pro Matre. "Não sabia que tinha de pagar a roupa", diz.
"O hospital não pode cobrar pelo acompanhamento do parto, nem mesmo por roupas usadas no centro cirúrgico", afirma a ANS em nota.
"A presença do acompanhante na hora do parto é um direito e é de livre escolha da mulher", diz Andrezza Amorim, técnica da Anvisa.
Segundo a agência, denúncias sobre esse cobrança podem ser feitas à vigilância sanitária local e podem render multas de R$ 2.000 a R$ 1,5 milhão.
"É uma prática abusiva. Qualquer cobrança é considerada um obstáculo à garantia desse direito em lei", diz Robson Campos, diretor do Procon.
Essa taxa é mais um dos serviços do pacote oferecido às mães e um indicativo do negócio que se firmou em torno do parto na rede particular.
Para gravar ou fotografar o nascimento, todas as maternidades exigem que o serviço seja feito por uma única empresa indicada, que cobra R$ 1.298.
Para o Procon, a restrição deve ser previamente justificada e informada às mães e a concorrência deve ser estimulada.
Com medo de que o marido desmaiasse na hora do parto e perdesse as fotos, Patrícia, mãe de Estela, de um ano e três meses, pagou R$ 1.000 a um fotógrafo indicado pelo São Luiz.
"Se eu levasse um fotógrafo próprio, só deixariam fazer as imagens do berçário do lado de fora, pela vidraça. Mas o fotógrafo deles entrou e tirou fotos do primeiro banho. Aceitei e fiquei rendida. Naquele momento tinha outras prioridades, já estava numa fase de muito cansaço", diz Patrícia.
As maternidades também oferecem extensões do teste do pezinho, cuja detecção básica de cinco doenças, por lei, é gratuita. Para o exame de mais cinco são cobrados R$ 118 e, para 41 deficiências, R$ 428.
Gratuitas na rede pública e que devem ser aplicadas nos primeiros dias de vida, as vacinas como BCG e contra a hepatite B são cobradas em alguns hospitais, R$ 95 a dose de cada uma, como no São Luiz, e gratuitas em outras, como no Santa Catarina.
Considerado inócuo por hematologistas e geneticistas, o congelamento do sangue do cordão umbilical, rico em células-tronco, é vendido a R$ 3.500 mais R$ 570 de manutenção anual como promessa de cura de doenças.
Colaborou EDUARDO GERAQUE
25/04/2010 - 03h00
Maternidades de SP cobram para pai ver parto do filho
VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO
da Reportagem Local
A administradora de recursos humanos Roberta Meza, 41, não sabia. A secretária-executiva Patrícia Fernandes Lopes Felipe, 32, também não. Antes de ter filhos há alguns meses, as duas percorreram maternidades particulares de São Paulo para conhecer os serviços antes de decidir onde fariam o parto.
* Veja resolução da Anvisa sobre serviços no parto
Por desconhecer a resolução que garante a presença de um acompanhante de livre escolha da mulher, pagaram R$ 147 para que os maridos assistissem ao nascimento dos bebês.
Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e Procon dizem em uníssono que a cobrança é abusiva e claramente ilegal.
Pesquisa da USP mostra que diversos indicadores melhoram com a presença do acompanhante no parto, como diminuição da dor e índices menores de depressão pós-parto.
Ao longo da semana, a reportagem refez os passos de Roberta e Patrícia e visitou cinco maternidades paulistanas: Einstein, Pro Matre, Santa Catarina, Santa Joana e São Luiz.
Todas, menos o Einstein, cobram entre R$ 113 e R$ 147 para presença do pai na hora do parto, o que chamam de "taxa de paramentação" para cobrir os custos do avental cirúrgico.
Com o comprovante de pagamento do parto em mãos, Roberta, mãe dos gêmeos Rute e Miguel, de 11 meses, diz ter pago a taxa para o marido acompanhá-la, mas que a cobrança não foi incluída na nota fiscal emitida pela maternidade Pro Matre. "Não sabia que tinha de pagar a roupa", diz.
"O hospital não pode cobrar pelo acompanhamento do parto, nem mesmo por roupas usadas no centro cirúrgico", afirma a ANS em nota.
"A presença do acompanhante na hora do parto é um direito e é de livre escolha da mulher", diz Andrezza Amorim, técnica da Anvisa.
Segundo a agência, denúncias sobre esse cobrança podem ser feitas à vigilância sanitária local e podem render multas de R$ 2.000 a R$ 1,5 milhão.
"É uma prática abusiva. Qualquer cobrança é considerada um obstáculo à garantia desse direito em lei", diz Robson Campos, diretor do Procon.
Essa taxa é mais um dos serviços do pacote oferecido às mães e um indicativo do negócio que se firmou em torno do parto na rede particular.
Para gravar ou fotografar o nascimento, todas as maternidades exigem que o serviço seja feito por uma única empresa indicada, que cobra R$ 1.298.
Para o Procon, a restrição deve ser previamente justificada e informada às mães e a concorrência deve ser estimulada.
Com medo de que o marido desmaiasse na hora do parto e perdesse as fotos, Patrícia, mãe de Estela, de um ano e três meses, pagou R$ 1.000 a um fotógrafo indicado pelo São Luiz.
"Se eu levasse um fotógrafo próprio, só deixariam fazer as imagens do berçário do lado de fora, pela vidraça. Mas o fotógrafo deles entrou e tirou fotos do primeiro banho. Aceitei e fiquei rendida. Naquele momento tinha outras prioridades, já estava numa fase de muito cansaço", diz Patrícia.
As maternidades também oferecem extensões do teste do pezinho, cuja detecção básica de cinco doenças, por lei, é gratuita. Para o exame de mais cinco são cobrados R$ 118 e, para 41 deficiências, R$ 428.
Gratuitas na rede pública e que devem ser aplicadas nos primeiros dias de vida, as vacinas como BCG e contra a hepatite B são cobradas em alguns hospitais, R$ 95 a dose de cada uma, como no São Luiz, e gratuitas em outras, como no Santa Catarina.
Considerado inócuo por hematologistas e geneticistas, o congelamento do sangue do cordão umbilical, rico em células-tronco, é vendido a R$ 3.500 mais R$ 570 de manutenção anual como promessa de cura de doenças.
Colaborou EDUARDO GERAQUE
25 de abril de 2010
Trilha sonora para bem nascer
Quando preparava meu plano de parto, perguntava-me se desejaria uma música especial para a chegada do meu guri. E de tanto pensar no assunto, cheguei à conclusão de que jamais conseguiria selecionar uma música só para um momento tão pleno de significado.
Meu pequeno veio ao mundo num quarto em silêncio, em que tudo o que eu conseguia ouvir era a minha própria respiração. Uns momentos antes de ele coroar, pude ainda correr os olhos ao meu redor, e notei então a lotação da sala de parto. Além de mim, do meu então marido, da doula e da equipe médica, havia ainda algumas enfermeiras que eu não vira até então. Concentradas num canto, elas tinham os olhos arregalados e, em silêncio, quase segurando a respiração, apertavam-se umas contra as outras, como torcida de futebol a observar a jogada que em segundos levará ao gol.
O grito de gol não veio, mas apenas um gemido - meu - e depois outro gemido - do meu filho, que já estava nos meus braços. Segurei-o na frente do meu rosto, observei seus traços, e então ele começou a chorar!
Eu mesma não chorei, e essa foi uma das sensações mais singulares da minha vida. Era tanta emoção que eu não conseguia chorar.
Dias mais tarde, enquanto olhava as fotos que a doula tirara do parto e enquanto pensava em como me senti pequena e ao mesmo tempo poderosa ao acolher meu guri pela primeira vez, ao acaso veio-me uma música na cabeça.
E essa música, sem dúvida, foi a trilha sonora do meu parto, ou melhor, do parto do Murilo, mesmo que ela só tenha tocado na minha cabeça.
Meu pequeno veio ao mundo num quarto em silêncio, em que tudo o que eu conseguia ouvir era a minha própria respiração. Uns momentos antes de ele coroar, pude ainda correr os olhos ao meu redor, e notei então a lotação da sala de parto. Além de mim, do meu então marido, da doula e da equipe médica, havia ainda algumas enfermeiras que eu não vira até então. Concentradas num canto, elas tinham os olhos arregalados e, em silêncio, quase segurando a respiração, apertavam-se umas contra as outras, como torcida de futebol a observar a jogada que em segundos levará ao gol.
O grito de gol não veio, mas apenas um gemido - meu - e depois outro gemido - do meu filho, que já estava nos meus braços. Segurei-o na frente do meu rosto, observei seus traços, e então ele começou a chorar!
Eu mesma não chorei, e essa foi uma das sensações mais singulares da minha vida. Era tanta emoção que eu não conseguia chorar.
Dias mais tarde, enquanto olhava as fotos que a doula tirara do parto e enquanto pensava em como me senti pequena e ao mesmo tempo poderosa ao acolher meu guri pela primeira vez, ao acaso veio-me uma música na cabeça.
E essa música, sem dúvida, foi a trilha sonora do meu parto, ou melhor, do parto do Murilo, mesmo que ela só tenha tocado na minha cabeça.
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